Diabetes: prevenção de complicações

Guia para pacientes · Diabetes

As complicações do diabetes podem começar sem sintomas. Enxergar bem, urinar normalmente ou não sentir dor nos pés não exclui doença. O rastreamento regular permite agir mais cedo.

Paciente ao centro e, ao redor, olhos, rins, nervos, cérebro, coração, circulação das pernas, pés e músculos
O diabetes pede cuidado integral. Ilustração simbólica criada com IA, sem finalidade diagnóstica. A sarcopenia é uma condição associada, não uma complicação micro ou macrovascular clássica.

Microvasculares

Envolvem pequenos vasos e tecidos: retinopatia, doença renal e neuropatia, que também tem mecanismos metabólicos.

Macrovasculares

Envolvem grandes artérias: doença coronariana, AVC isquêmico e doença arterial periférica. Insuficiência cardíaca também merece atenção.

Perda de sensibilidade e má circulação podem se combinar nas lesões dos pés. Saúde muscular, nutrição e prevenção da sarcopenia completam o cuidado.

Quando o olho adoece: retinopatia diabética

O que é? Lesão dos pequenos vasos da retina, a camada no fundo do olho que capta as imagens. Pode causar sangramento, inchaço na região central da retina (edema macular) e perda visual.

Quais sintomas? Visão embaçada, manchas, pontos flutuantes ou dificuldade para enxergar podem aparecer. Mas a retinopatia pode estar presente e avançar sem alterar a visão no início.

Como rastrear? Com avaliação do fundo do olho, geralmente após dilatação da pupila; retinografia pode integrar programas de rastreamento. No DM2, a avaliação começa no diagnóstico e costuma ser anual. No DM1, em geral começa após cinco anos, respeitando orientações por idade. Se houver alterações, o oftalmologista pode encurtar os intervalos.

Como tratar? O controle do diabetes, da pressão e dos lipídios é a base da prevenção e ajuda a reduzir a progressão. Quando a retina já precisa de tratamento, podem ser necessárias injeções intraoculares, laser ou cirurgia. Controlar a glicose não substitui essas intervenções quando indicadas.

Quando o rim adoece: doença renal do diabetes

O que é? O diabetes pode lesar os filtros dos rins, causando perda de proteína na urina e/ou redução da filtração. No início, é comum não haver sintomas; o volume de urina pode continuar normal.

Creatinina no sangue + TFGe

A creatinina permite estimar a taxa de filtração glomerular (TFGe). Essa estimativa ajuda a medir a função do rim; olhar só se a creatinina está “normal” pode não ser suficiente.

Albuminúria na urina

A razão albumina/creatinina (RAC) detecta escape de albumina. Não é substituída por creatinina no sangue ou por um exame simples de urina. Resultados alterados geralmente precisam de confirmação.

Quando avaliar? No diagnóstico do DM2 e, no DM1, em geral após cinco anos, com critérios próprios para crianças e adolescentes. Depois, pelo menos anualmente; com doença renal estabelecida, a frequência aumenta conforme o risco.

Quando incluir nefrologista? Se a TFGe estiver abaixo de 30 mL/min/1,73 m², cair rapidamente, se a albuminúria aumentar progressivamente, houver dúvida sobre a causa ou dificuldade no controle da pressão, do potássio e de outras complicações. A avaliação pode ser necessária antes desse limite. Nem toda alteração renal em quem tem diabetes é causada pelo diabetes.

Há proteção renal específica? Sim. Além do controle glicêmico e da pressão, no DM2 podem ser indicados inibidores de SGLT2, medicamentos como IECA ou BRA, finerenona e/ou agonistas de GLP-1 com benefício demonstrado, conforme função renal, albuminúria e condições clínicas. Potássio e função renal precisam de acompanhamento. Não inicie nem suspenda esses remédios por conta própria.

Quando os nervos adoecem: neuropatia diabética

O que é? Lesão dos nervos, frequentemente começando nos pés, com queimação, formigamento, choques, dor ou dormência. Também pode ocorrer perda de sensibilidade sem dor — e a pessoa deixar de perceber uma lesão.

O que precisa ser excluído? Deficiência de vitamina B12, inclusive em uso prolongado de metformina, hipotireoidismo, álcool, doença renal, medicamentos neurotóxicos e outras doenças neurológicas podem causar ou agravar os sintomas. Não se deve atribuir todo formigamento ao diabetes.

Como avaliar? A equipe examina sensibilidade, vibração, temperatura, reflexos e risco de lesão nos pés. O monofilamento ajuda a detectar perda de sensibilidade protetora, mas normalidade não exclui neuropatia inicial. No DM2, a avaliação começa no diagnóstico; no DM1, em geral após cinco anos, e é repetida pelo menos anualmente.

Como cuidar? Controle glicêmico e dos demais fatores de risco, proteção dos pés e tratamento individualizado da dor. A neuropatia autonômica pode afetar pressão ao levantar, digestão, bexiga, função sexual e percepção da hipoglicemia: relate esses sintomas. Fraqueza rápida, assimetria ou evolução incomum exigem investigação de outras causas.

Pés: prevenir lesões e reconhecer urgências

Neuropatia, deformidades, pressão dos calçados e circulação reduzida podem favorecer feridas. Uma lesão grave pode não doer. O exame profissional inclui pele, sensibilidade, pulsos e calçados; a frequência varia de anual a intervalos menores conforme o risco.

  • Observe os pés todos os dias, inclusive a planta e entre os dedos; use espelho ou peça ajuda.
  • Lave e seque bem, especialmente entre os dedos. Hidrate a pele seca, evitando creme entre os dedos.
  • Use calçados adequados e confira seu interior antes de calçar. Evite andar descalço.
  • Não corte calos, não use produtos para removê-los e evite bolsas de água quente. Procure orientação para unhas e alterações da pele.

Coração e cérebro: doença cardiovascular, dor no peito e AVC

O diabetes aumenta o risco de aterosclerose — placas que estreitam as artérias —, infarto e AVC isquêmico. Também aumenta o risco de insuficiência cardíaca, quando o coração não consegue atender adequadamente às necessidades do corpo.

Precordialgia significa dor ou desconforto na região do peito. Pressão, aperto ou peso, às vezes irradiando para braço, mandíbula ou costas, pode indicar problema cardíaco. No diabetes, um infarto pode se manifestar com pouca dor, falta de ar, suor frio, náusea ou cansaço intenso.

Falta de ar progressiva, dificuldade para respirar deitado e pernas inchadas podem sugerir insuficiência cardíaca e precisam de avaliação; falta de ar súbita ou intensa é emergência.

A prevenção reúne controle da pressão e do colesterol, não fumar, alimentação, movimento e medicamentos com benefício cardiovascular quando indicados. Antiplaquetários não são recomendados automaticamente para todas as pessoas com diabetes. A necessidade de exames cardíacos depende de sintomas e risco: rastrear complicações não significa fazer teste de esforço em todo paciente sem sintomas.

Circulação das pernas: DAOP

A doença arterial obstrutiva periférica (DAOP), também chamada doença arterial periférica, reduz a chegada de sangue às pernas e aos pés. Pode causar dor na panturrilha ao caminhar que melhora ao parar, feridas que não cicatrizam e pés frios. Também pode ser silenciosa, especialmente com neuropatia ou pouca atividade.

A avaliação inclui exame dos pulsos e, quando indicado, índice tornozelo-braquial e outros testes vasculares. O tratamento pode envolver exercício orientado, controle dos fatores de risco, medicamentos e acompanhamento com angiologista/cirurgião vascular; algumas pessoas precisam restabelecer o fluxo de sangue por procedimento.

Força e músculos: sarcopenia

Sarcopenia é a perda de força associada à redução da quantidade ou qualidade muscular. O diabetes, sobretudo com envelhecimento e outras doenças, pode acelerar esse processo. Ela não faz parte da classificação clássica de complicações micro ou macrovasculares, mas merece atenção.

Dificuldade para levantar da cadeira, subir escadas, carregar objetos, caminhar ou quedas podem ser pistas. A avaliação considera força, massa muscular e desempenho, e não apenas o peso na balança.

Fortalecimento muscular orientado, atividade física, nutrição adequada e controle do diabetes ajudam no cuidado. A quantidade de proteína precisa ser individualizada, especialmente na doença renal. Evite dietas muito restritivas e perda de peso acompanhada de perda de força sem avaliação.

Um plano para detectar cedo

  • Olhos: no DM2, desde o diagnóstico; acompanhamento geralmente anual, adaptado aos achados.
  • Rins: creatinina com TFGe e RAC urinária, pelo menos anualmente nas pessoas elegíveis ao rastreamento.
  • Nervos e pés: avaliação regular; mais frequente quando o risco é elevado.
  • Coração e circulação: avaliar sintomas, pressão, lipídios, tabagismo e risco individual.
  • Músculos: observar força, mobilidade e estado nutricional, sobretudo em idosos.

No DM1, início e frequência dos exames dependem também da duração da doença e da idade. Gestação, alterações já detectadas e outras situações modificam esse plano.

Referências e leitura complementar

Conteúdo educativo · Atualizado em 29/10/2026
Não substitui avaliação médica individual. Exames, encaminhamentos e medicamentos devem ser definidos pela equipe assistente. Na presença dos sinais de emergência, procure atendimento imediatamente.

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